A chamada “psicose política”, termo que se espalhou pelas redes sociais após o primeiro turno das eleições presidenciais, transformou a cobrança por posicionamento de artistas e influenciadores em uma nova forma de engajamento político entre internautas. Em publicações que nada têm a ver com o pleito, usuários passaram a exigir, nos comentários, que celebridades revelem seu voto ou declarem apoio a um dos candidatos.
O movimento tem um nome para quem evita se expor: “isentão”. A expressão designa famosos que preferem não declarar preferência eleitoral, e virou alvo de perseguição digital. Para parte do público, identificar quem está “do lado certo” - ou simplesmente descobrir a posição política de quem acompanha - tornou-se tão importante quanto o próprio conteúdo publicado por essas figuras.
Lista de nomes cobrados cresce nas redes
Entre os citados nesse tipo de pressão estão nomes de áreas distintas do entretenimento e do esporte, como Jade Picon, Maju Trindade, Tata Estaniecki, João Gomes, Felca, Casimiro, Whindersson Nunes, Selton Mello, Marta e Vini Jr. A diversidade da lista mostra que a cobrança não se restringe a um nicho: atinge atletas, criadores de conteúdo, atores e cantores, todos avaliados pela audiência que acumulam e pelo potencial de influência sobre seus seguidores.
Memes, listas e até planilhas organizadas circulam nas redes para mapear quem ainda não se pronunciou. A lógica por trás dessas iniciativas é simples: quanto maior o alcance de uma figura pública, maior a expectativa de que ela use sua visibilidade para impactar o debate e, em tese, mobilizar eleitores.
Perfis organizam a pressão e ganham engajamento
Contas como a Brics_Brasil, no Instagram, se consolidaram como espaços dedicados a cobrar posicionamentos de celebridades, acumulando curtidas, comentários e compartilhamentos a cada publicação. Esse tipo de conteúdo encontrou um público disposto a participar ativamente, replicando listas e reforçando a demanda por manifestações públicas.
A mobilização também assumiu um recorte regional. Uma publicação voltada a artistas nordestinos que ainda não se manifestaram questiona a contradição entre celebrar a cultura da região e evitar debates políticos que afetam diretamente seus eleitores. O Nordeste é historicamente um reduto do PT - no primeiro turno das eleições de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva obteve 63,77% dos votos válidos na região, contra 30,85% de Flávio Bolsonaro. Um comentário fixado na publicação resume o tom da crítica: “O Nordeste não é só um cachê!”.
Sátira e pressão coletiva como forma de participação
Outra estratégia que ganhou força usa a estética das embalagens de leite, historicamente associadas à divulgação de pessoas desaparecidas, para ironizar influenciadores que evitam se posicionar. A montagem humorística reforça, de forma simbólica, a cobrança por manifestações públicas e transforma a omissão em motivo de piada nas redes.
Não há garantia de que esse tipo de pressão leve famosos a mudar de postura, tampouco de que produza algum efeito concreto sobre o resultado das urnas. Ainda assim, para parte do eleitorado, cobrar publicamente um posicionamento funciona como forma de participação no debate político, de expressão de insatisfação e de defesa de valores como a democracia e a liberdade de expressão.